OLEO, PANE E MIELE

AMORE CO AMORE SI PAGA (Pra Migna Anamurada) Xinguê, Xigaste! Vigna afatigada i triste I triste e afatigada io vigna; Tu tigna a arma povolada di sogno Io a arma povolada di sogno io tigna. ( Juò Bananére – La Divina Encrenca)

Fernando R. Mieli

Dos efeitos do léxico técnico de Pasolini (vide texto bilíngue abaixo), podemos acreditar que a tecnologia pode liderar a língua, mas tem pouco a ver com a língua das civilizações que sofreram e ainda sofrem, seja como refugiados ou como imigrantes: misturam suas línguas nacionais com os dialetos/gírias e sotaques da região, mas suas raízes são eternas.

E por falar em raízes, seja na língua ou na agricultura, temos que forçosamente nos dirigir ao italiano do Brasil, partindo da grande imigração italiana, que é sem dúvida uma língua de herança, seja como fenômeno linguístico, histórico, social e de identidade.

No Brasil a linguagem tecnocrática italiana foi mais de memória e pertencimento. Não temos uma língua única de todos os que vieram trazendo seus dialetos, mas  um italianismo que ficou enraizado a ponto de dar origem a uma língua como “talian”, que nasce no Brasil e tem suas diferenças em relação ao italiano clássico e à língua veneta.

O italiano que veio para o Brasil teve que aprender uma língua local, o português do Brasil: “foi como aprender um antiga profissão”,  afirma um emigrante do interior do estado de São Paulo, que ainda “carpina a terra” . O italiano no Brasil acreditou que um povo sem passado é um povo sem futuro. O italiano trouxe sua verdadeira cultura recuperando e conservando as coisas boas, a matéria prima do seu território: “comer este pão, a divisão do pão, o gosto do azeite de oliva, a doçura do mel”.

A língua, às vezes se transforma como um camaleão que foi mudando de cor conforme os estados do país que ela habita e nos proporciona muitas emoções, sabores, sentidos até poesia como, por exemplo, os versos de Juó Bananére, pseudônimo literário do engenheiro, poeta e jornalista Alexandre Ribeiro Marcondes Machado, sendo um dos autores mais populares do Pré-Modernismo brasileiro. Nasceu em Pindamonhangaba/SP, a 11 de abril de 1892. Formou-se em Engenharia na faculdade Politecnica da USP, em 1917 e faleceu em São Paulo, de anemia perniciosa aos 41 anos, a 22 de agosto de 1933. Sua fama se deve ao trabalho como jornalista e poeta.

Começou escrevendo artigos para “O Estado de São Paulo”, e em 1911 adota o pseudônimo  que o deixaria famoso, integrando a equipe de articulistas do tabloide “O Pirralho”, dirigido por Oswald de Andrade.

Um dos grandes achados de Juó Bananére foi a criação de uma “ língua macarrônica”, que parodia a fala inculta da primeira leva de imigrantes italianos chegados no Brasil, misturando códigos ortográficos dos idiomas português e italiano e inventando palavras.

“Na minha terra tê parmeras

Dove ganta a galligna d’angola;

Na minha terra tê o Vap’relli,

Chi só anda di gartolla”  – Poesia Migna Terra do livro “La Divina Encrenca”.

A grande contribuição de Bananére às letras brasileiras foi o livro de poemas “La Divina Encrenca”, cuja primeira edição, saiu em 1915. No título há a referencia irônica e bem-humorada a um dos pais da língua italiana:  Dante Alighieri – A Divina Comédia.

Vamos agora simular virtualmente, com a ajuda da tecnologia, como seria a presença do português brasileiro como língua de herança entrando pela porta dos fundos no mundo, especialmente na Italia, em razão, sobretudo, do caminho de volta que muitos brasileiros estão fazendo em direção às suas origens, ao decidirem deixar o Brasil e constituir residência na Italia.

Antes de tudo é preciso resgatar a cidadania italiana com ou sem o suporte dos representantes no Parlamento italiano, eleitos no Brasil. Vamos supor que fossem políticos culturais, defensores da nacionalidade italiana, acomodados ou não. Por onde andarão:  na Itália ou no Brasil? Se estivessem no aeroporto, ao certo se deparariam com o ex-ministro da Educação Weintraub indo para o Banco Mundial.

No entanto ouve-se falar pouco dos representantes e suas leis. Hoje o que sabemos, com certeza:  Nos jornais, a Divina Encrenca de Bananére, que tinha “a arma povolada de sogno”, se transformou num outro tipo de encrenca.

(

E querem que a gente acredite nesta escoris!

Como diria um outro grande humorista que nos deixou : Antonio Carlos Bernardes Gomes, o Trapalhão Mussum,

Mussum popularizou seu modo particular de falar, acrescentando as terminações “is” ou “évis” as palavras arbitrárias

– Que saudades  Mussum : “não dá para encarar nem enchendo a cara de

: gíria utilizada para cachaça – a grappa ou graspa brasileira, também conhecida como pinga

CAROS CIDADÃOS ITALIANOS NO BRASIL

TENHAM UMA BUONA VIDA!

 

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DA SAPERE –  L’UOMO E LA SOCIETÀ: LA PATRIA TRASMESSO IL 22/02/68 SU RAI3

O HOMEM E A SOCIEDADE: A PÁTRIA TRANSMITIDO NA RAI3 EM 22/02/68

PASOLINI RACCONTA LA NASCITA DEL ITALIANO

PASOLINI CONTA O NASCIMENTO DO ITALIANO

– Come si è verificato questo fato, in un paese così diviso, così anche pieno di inimicizie municipali abbia avuto molto presto una lingua unitaria l’Italiano.

Si è verificato nel unico modo possibile e cioè attraverso la letteratura. L’italiano praticamente è una lingua soltanto letteraria per molti secoli, cioè fino praticamente a dieci o vent’anni fa. Mentre il francese si è formato come lingua unitaria per ragioni politiche, burocratiche e statali, l’italiano è diventato una lingua unitaria che comprende tutta l’Italia per ragioni puramente letterarie, ripeto. E questo prestigio letterario è nato a Firenze in una situazione storiaca molto diversa dell’attuale. I tre grandi padri dell’italiano cioè, Dante, Petrarca e Boccaccio si sono imposti al resto della popolazione italiana per ragioni di prestigio letterario.

– Como se verificou este fato, em um país assim dividido, também cheio de inimizades municipais teve muito cedo uma língua unitária.

Verificou-se no único modo possível, isso é através da literatura. O italiano praticamente é uma língua somente literária por muitos séculos, isso é praticamente até dez ou vinte anos atrás. Enquanto o francês se formou como língua unitária por razões políticas, burocráticas e estatais, o italiano se tornou uma língua unitária, que compreende toada a Itália, por razões puramente literárias, repito.

E este prestígio literário nasceu em Florença, numa situação histórica muito diferente da atual. Os três grandes pais do italiano, ou seja, Dante, Petrarca e Boccaccio se impuseram ao resto da população italiana por razões de prestígio literário.

– Questo che cosa significa, che la maggior parte degli italiani fino a quindici o vent’anni fa, non parlava quindi l’italiano in realtà?

Nemmeno ora si parla l’italiano. Lei sente, il mio italiano non è il suo.Cioè in questo momento abbiamo un italiano che è strettamente unitario dal punto di vista linguistico. Cioè un giornale di Milano, usa più o meno lo stesso italiano di un giornale di Palermo. Ma quando gli italiani approno bocca e parlano, parlano ognuno un italiano particolare: regionale, cittadino, individuale. Cioè il cosidetto italiano dialettizzato.

– O que isto quer dizer, que a maior parte dos italianos até quinze ou vinte anos atrás, não falava realmente o italiano?

Nem hoje se fala italiano. Veja o meu italiano e o seu.  Isto é, neste momento temos um italiano que é proximamente unitário sob o ponto de vista linguístico, isso é um jornal de Milão utiliza mais ou menos o mesmo italiano que um jornal de Palermo. Mas quando os italianos abrem a boca e falam, cada um fala um italiano particular: regional, pessoal,  individual, ou seja, o chamado italiano dialetizado.

– Ma vicino all’italiano ci sono anche i dialetti veri e propri?

Certo, che sono delle lingue potenziali che non sono arrivate al grado di língua. Perchè sono state soppiantate dal prestigio letterario del fiorentino.

– Mas além do italiano existem também os verdadeiros e próprios dialetos?

  

Certamente, os dialetos são línguas potenciais que não chegaram ao patamar de língua. Porque foram superadas pelo prestígio literário florentino.

– Senta Pasolini, ma nella língua italiana ci sono un pò direi la vestigia di questa vicenda italiana unitaria così burrascosa, così dura, così difficile?

Beh le vestigia non sono poi molte, ci sono effettivamente tantissime parole nel lessico italiano che non sono di origine latina: sono di origine germanica, celtica, spagnola, addirittura araba, ma queste sono delle tracce superficiali e poco significative.

In realtà l’italiano linguisticamente è molto unito, molto unitario, la sua derivazione del latino è molto precisa. Anche perchè appunto ripeto: una lingua più letteraria che burocratica, comunicativa, eccetera, eccetera…tende ad essere molto fissatrice delle proprie istituzioni linguistiche.

– Pasolini, mas na língua italiana existe um pouco o vestígio desta situação italiana unitária tão tormentosa , tão dura, tão difícil?

Bem os vestígios não são muitos, existem na realidade um grande número de palavras no léxico italiano que não são de origem latina: são de origem germânica, céltica, espanhola, até árabe, mas esses são traços superficiais e pouco significativos.

Na realidade o italiano linguisticamente é muito unido, muito unitário,  a sua derivação do latim é muito precisa. Também porque somente repito: uma língua mais literária do que burocrática, comunicativa, etc, etc.. tende a ser fiel às próprias instituições linguísticas.

– Senta un’ultima domanda. Vorrei rifarmi ad alcune polemiche recenti che si sono state a questo proposito. L’italiano va cambiando?

Sí, l’italiano va cambiando nel senso che si sta facendo più veramente unitario. Ripeto fino a quindice, vent’anni fa, trent’anni fa, non si poteva parlare un italiano veramente. Si può cominciare a parlare adesso. Anche per merito della televisione, dei giornali oppure della vita statale, che è infinitamente più unita che molti anni fa.

Le infrastrutture sono enormemente accresciute, ma il centro linguistico dell’italiano non è più letterario e non è più Firenze, ma è tecnico,è tecnologico ed è Milano. Cioè per esempio, l’italiano è unito soprattutto da un linguaggio tecnico. Cioè mettiamo la parola “FRIGORIFERO”. È una lingua che tutti gli italiani adoperano, dalla massaia di Milano alla massaia di Palermo, tutte usano la parola frigorifero. Cioè le parole tecniche sono una specie di cemento, di pattina che si sta livellando tutto l’italiano.

– Uma última pergunta. Refiro-me a algumas polêmicas che tivemos sobre esse assunto. O italiano está mudando?

Sim, o italiano está mudando no sentido que está se tornando mais unitário. Repito até quinze, vinte, trinta anos atrás, não se podia far um verdadeiro italiano. Podemos começar a falar agora. Também graças à televisão, aos jornais, ou através da vida do estado, que é infinitamente mais unida agora do que foi muitos anos atrás.

As infraestruturas crescerem enormemente, mas o centro linguístico italiano não é mais literário e não é mais Florença, mas é técnico, é tecnológico e é Milão. Por exemplo, o italiano é unido sobretudo por uma linguagem técnica. Isto é, consideramos a palavra geladeira. È uma língua usada por todos os italianos, desde a dona de casa de Milão até a dona de casa de Palermo, todas utilizam a palavra geladeira. Ou seja as palavras técnicas são uma espécie de cimento que está nivelando todo o italiano.

– Bene, questo lei trova che sia migliore, diciamo questa hegemonia tecnológica o tecnocrática sulla lingua, che non una egemonia letteraria?

Mah cosa vuole non è migliore ne peggiore, questa è la realtà. Io tendenzialmente, certo, tendo ad amare di più, alla guida di una lingua nazionale, una lingua letteraria.

Ma questa lingua invece che essere letteraria é tecnologica.

Non posso fare altro che prenderne atto.

– Bem Você considera melhor uma hegemonia tecnológica ou tecnocrática do que uma hegemonia literária?

Não é melhor nem pior, esta é a realidade.  Com relação a uma língua nacional, Eu tendo a amar mais uma língua literária. Mas essa língua em vez de ser literária é tecnológica.

Tudo que posso fazer é tomar conhecimento disso.

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